Resumo
A demência constitui uma das principais preocupações de saúde pública do século XXI, associando-se frequentemente ao desenvolvimento de sintomas comportamentais e psicológicos (SCPD), presentes em até 90% dos doentes. Para o seu controlo, os antipsicóticos têm sido amplamente prescritos, apesar do seu perfil de risco clinicamente significativo nesta população. Através de análise documental sistemática de diretrizes nacionais e internacionais publicadas entre 2016 e 2025, este trabalho analisa criticamente o uso de antipsicóticos em idosos com demência, organizando a evidência em cinco eixos temáticos: indicações clínicas, riscos e efeitos adversos, reavaliação e desprescrição, intervenções não farmacológicas e implicações éticas. As diretrizes convergem na recomendação de reservar os antipsicóticos para situações de gravidade relevante e apenas após falência documentada de abordagens não farmacológicas. Os antipsicóticos atípicos são preferidos. Os principais riscos incluem aumento da mortalidade, eventos cerebrovasculares, sedação, efeitos extrapiramidais e síndrome metabólica. Todas as normas recomendam a dose mínima eficaz, com reavaliação periódica e desprescrição entre as quatro e as doze semanas. A prescrição levanta dilemas éticos complexos, particularmente quanto à autonomia de doentes com capacidade decisional comprometida e à tensão entre benefício e dano. O uso como contenção química em contexto institucional é considerado eticamente inaceitável. As decisões terapêuticas devem ser individualizadas, partilhadas com doentes, famílias e cuidadores, e sustentadas em evidência científica atualizada, sendo urgente a implementação de estratégias não farmacológicas e de programas de desprescrição.Referências
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